PATROA – Edilene.
EMPREGADA – Sim, senhora.
PATROA – Em relação aquele assunto financeiro…
EMPREGADA – Sim, senhora.
PATROA – Eu não vou estar podendo te dar um adiantamento.
EMPREGADA – Tudo bem, senhora.
PATROA – Vou te pagar tudo daqui a uma semana mesmo. Como o combinado.
EMPREGADA – Não tem problema, senhora.
PATROA – A situação está preta, o país em crise…
EMPREGADA – Eu sei, sim senhora.
PATROA – O Mascarenhas está desempregado…
EMPREGADA – É tudo muito difícil.
PATROA – Demais de difícil.
EMPREGADA – Não se preocupe, senhora.
PATROA – Que bom que você entende.
EMPREGADA – Entendo sim, senhora.
PATROA – E por mais que possa parecer que eu e o Mascarenhas estejamos levando uma vida boa, não estamos.
EMPREGADA – Sim, senhora.
PATROA – É tudo fachada, Edilene. Tudo aparência. Os bancos tão atrás do Mascarenhas. Cobrador, agiota, tudo. Eu mesma tive que me privar de certas regalias, certos luxos. A situação está preta.
EMPREGADA – A senhora falou.
PATROA – Salve-se quem puder. E não somos só nós que estamos mal, não. Dona Letícia e seu Marcos já penhoraram tudo.
EMPREGADA – É mesmo, dona Claudia?
PATROA – Pra você ver. Eu te falo isso pra você não achar que a situação é simples. Eu sei que esse dinheiro vai te fazer falta, Edilene.
EMPREGADA – Imagine, dona Claudia.
PATROA – Vai que eu sei. Não precisa mentir para me deixar mais tranqüila. Edilene, você é uma pessoa muito boa.
EMPREGADA – Obrigada, dona Claudia.
PATROA – De um coração enorme.
EMPREGADA – Obrigada, dona Claudia.
PATROA – É sim. Essa sua compreensão, mesmo num tempo de dificuldades para todos, é louvável. Obrigada, Edilene.
EMPREGADA – O que é isso, dona Claudia.
PATROA – Mas, mês que vem! Mascarenhas está com um projeto que se der certo… Só ta faltando um investidor.
EMPREGADA – Que bom, dona Claudia.
PATROA – Alguém que acredite e que mesmo em meio ao caos financeiro geral, ainda tenha dinheiro.
EMPREGADA – Sei, sim senhora.
PATROA – É aí que entra você, Edilene, e por isso que eu te chamei aqui. Eu e o Mascarenhas precisávamos de outro empréstimo.
EMPREGADA – Quanto?
PATROA – E dessa vez você ainda entra de sócia fundadora.
EMPREGADA – Quanto?
PATROA – O suficiente para o projeto andar.
EMPREGADA – Quanto?
PATROA – Não existe um valor especifico. Nada que você não se sentisse disposta a ceder. Algo em torno de…
EMPREGADA – Eu vou fazer o seguinte dona Claudia, eu vou dar o mesmo valor do empréstimo passado…
PATROA – Isso seria ótimo.
EMPREGADA – Mas tem um porém.
PATROA – Qualquer coisa.
EMPREGADA – Dessa vez os termos do contrato vão ser diferentes.
PATROA – Como assim?
EMPREGADA – Eu não quero saber de juros nem nada. Eu vou dar um prazo de quarenta e cinco dias…
PATROA – Só quarenta e cinco?
EMPREGADA – Dona Claudia!
PATROA – Sim, senhora.
EMPREGADA – Eu vou dar um prazo de quarenta e cinco dias, e se ele não for cumprido, eu fico com o sofá da sala e com o tapete do hall.
PATROA – Está bem. Mas fique tranqüila que isso não vai precisar acontecer. Em sessenta dias você terá seu dinheiro devolvido.
EMPREGADA – Quarenta e cinco.
PATROA – Quarenta e cinco, claro.
EMPREGADA – Eu tenho que ser um pouco mais rígida dessa vez. A situação está preta, o país em crise…
PATROA – Eu sei sim, senhora.
EMPREGADA – Então muito bem, amanhã eu deposito o dinheiro na sua conta.
PATROA – Muito obrigado Edilene, você não vai se arrepender.
EMPREGADA – A conta de sempre?
PATROA – A de sempre.
EMPREGADA – Muito bem.
PATROA – Edilene, o jantar está servido?
EMPREGADA – Ainda não, dona Cláudia.
PATROA – Mas eu não falei que queria o jantar servido sempre as 20:45h?
EMPREGADA – É que…
PATROA – Tá bem Edilene, tá bem… Não precisa se explicar. Eu entendo que você tenha se atrasado. É normal se atrasar. Todo mundo sempre atrasa. Cinco, dez, às vezes quinze…
EMPREGADA – Dona Claudia.
PATROA – Quarenta e cinco dias, pode deixar.
EMPREGADA – A situação tá preta…
PATROA – O país em crise…
EMPREGADA – Ainda bem que a senhora entende.