Tempos difíceis

21 07 2008

PATROA – Edilene.

EMPREGADA – Sim, senhora.

PATROA – Em relação aquele assunto financeiro…

EMPREGADA – Sim, senhora.

PATROA – Eu não vou estar podendo te dar um adiantamento.

EMPREGADA – Tudo bem, senhora.

PATROA – Vou te pagar tudo daqui a uma semana mesmo. Como o combinado.

EMPREGADA – Não tem problema, senhora.

PATROA – A situação está preta, o país em crise…

EMPREGADA – Eu sei, sim senhora.

PATROA – O Mascarenhas está desempregado…

EMPREGADA – É tudo muito difícil.

PATROA – Demais de difícil.

EMPREGADA – Não se preocupe, senhora.

PATROA – Que bom que você entende.

EMPREGADA – Entendo sim, senhora.

PATROA – E por mais que possa parecer que eu e o Mascarenhas estejamos levando uma vida boa, não estamos.

EMPREGADA – Sim, senhora.

PATROA – É tudo fachada, Edilene. Tudo aparência. Os bancos tão atrás do Mascarenhas. Cobrador, agiota, tudo. Eu mesma tive que me privar de certas regalias, certos luxos. A situação está preta.

EMPREGADA – A senhora falou.

PATROA – Salve-se quem puder. E não somos só nós que estamos mal, não. Dona Letícia e seu Marcos já penhoraram tudo.

EMPREGADA – É mesmo, dona Claudia?

PATROA – Pra você ver. Eu te falo isso pra você não achar que a situação é simples. Eu sei que esse dinheiro vai te fazer falta, Edilene.

EMPREGADA – Imagine, dona Claudia.

PATROA – Vai que eu sei. Não precisa mentir para me deixar mais tranqüila. Edilene, você é uma pessoa muito boa.

EMPREGADA – Obrigada, dona Claudia.

PATROA – De um coração enorme.

EMPREGADA – Obrigada, dona Claudia.

PATROA – É sim. Essa sua compreensão, mesmo num tempo de dificuldades para todos, é louvável. Obrigada, Edilene.

EMPREGADA – O que é isso, dona Claudia.

PATROA – Mas, mês que vem! Mascarenhas está com um projeto que se der certo… Só ta faltando um investidor.

EMPREGADA – Que bom, dona Claudia.

PATROA – Alguém que acredite e que mesmo em meio ao caos financeiro geral, ainda tenha dinheiro.

EMPREGADA – Sei, sim senhora.

PATROA – É aí que entra você, Edilene, e por isso que eu te chamei aqui. Eu e o Mascarenhas precisávamos de outro empréstimo.

EMPREGADA – Quanto?

PATROA – E dessa vez você ainda entra de sócia fundadora.

EMPREGADA – Quanto?

PATROA – O suficiente para o projeto andar.

EMPREGADA – Quanto?

PATROA – Não existe um valor especifico. Nada que você não se sentisse disposta a ceder. Algo em torno de…

EMPREGADA – Eu vou fazer o seguinte dona Claudia, eu vou dar o mesmo valor do empréstimo passado…

PATROA – Isso seria ótimo.

EMPREGADA – Mas tem um porém.

PATROA – Qualquer coisa.

EMPREGADA – Dessa vez os termos do contrato vão ser diferentes.

PATROA – Como assim?

EMPREGADA – Eu não quero saber de juros nem nada. Eu vou dar um prazo de quarenta e cinco dias…

PATROA – Só quarenta e cinco?

EMPREGADA – Dona Claudia!

PATROA – Sim, senhora.

EMPREGADA – Eu vou dar um prazo de quarenta e cinco dias, e se ele não for cumprido, eu fico com o sofá da sala e com o tapete do hall.

PATROA – Está bem. Mas fique tranqüila que isso não vai precisar acontecer. Em sessenta dias você terá seu dinheiro devolvido.

EMPREGADA – Quarenta e cinco.

PATROA – Quarenta e cinco, claro.

EMPREGADA – Eu tenho que ser um pouco mais rígida dessa vez. A situação está preta, o país em crise…

PATROA – Eu sei sim, senhora.

EMPREGADA – Então muito bem, amanhã eu deposito o dinheiro na sua conta.

PATROA – Muito obrigado Edilene, você não vai se arrepender.

EMPREGADA – A conta de sempre?

PATROA – A de sempre.

EMPREGADA – Muito bem.

PATROA – Edilene, o jantar está servido?

EMPREGADA – Ainda não, dona Cláudia.

PATROA – Mas eu não falei que queria o jantar servido sempre as 20:45h?

EMPREGADA – É que…

PATROA – Tá bem Edilene, tá bem… Não precisa se explicar. Eu entendo que você tenha se atrasado. É normal se atrasar. Todo mundo sempre atrasa. Cinco, dez, às vezes quinze…

EMPREGADA – Dona Claudia.

PATROA – Quarenta e cinco dias, pode deixar.

EMPREGADA – A situação tá preta…

PATROA – O país em crise…

EMPREGADA – Ainda bem que a senhora entende.


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